quinta-feira, 27 de março de 2014

DEFTONES

Mas afinal o que é Deftones?


Em setembro de 1996 meus pais compraram nosso primeiro computador pessoal. Se não me engano, era um 486 (alguém se lembra desse modelo?). Consequentemente veio a oportunidade de termos acesso a então recém descoberta (pelo menos aqui no Brasil) rede mundial de computadores, também conhecida como internet.

Alguns meses depois, já no ano de 1997, eu havia entrado para a faculdade de jornalismo e meu envolvimento com a internet crescia a cada dia. Nada mais natural que eu criasse uma conta de correio eletrônico. Ou seja, meu e-mail. Tudo que eu tinha que fazer era escolher um portal que fornecia esse serviço gratuitamente e pensar em alguma identificação exclusiva para mim, a fim de ter finalmente o meu endereço eletrônico. Ah...os tempos modernos...

A identificação para o meu e-mail tinha que ser algo digno da minha condição na época. Afinal de contas eu era um estudante de jornalismo, totalmente fissurado por rock e rap, enfim, “o descolado”.  Não deu outra, meu e-mail seria deftones@”provedor”.com.br . Ingenuidade da minha parte? Talvez. Mas na época eu não iria imaginar que permaneceria com o mesmo endereço eletrônico até hoje (2014). Sendo assim, não pensei que na hora de fazer cadastro no banco, realizar compras, contratar serviço de TV a cabo, etc, eu teria que falar para uma atendente de telemarketing que meu e-mail era deftones@ alguma coisa.


Para solucionar isso, bastava criar uma nova conta usando algo como fabio78, fabio_gc, sei lá. Mas isso não aconteceu. Continuo com o Deftones. E aí alguns de vocês (não familiarizados com este blog, principalmente) podem me perguntar: que diabos é Deftones?

Pois bem. Como eu disse alguns parágrafos atrás, em 97 eu já era louco por música. Por isso acabei escolhendo um nome de uma banda para identificar meu e-mail! Faz sentido, não? Pelo menos na cabeça de um garoto de 18 anos fazia. Afinal de contas, o Deftones era uma banda nova de rock, mais precisamente de “nu-metal”, que eu acabara de descobrir e que englobava tudo aquilo que eu gostava em termos de música e visual.

Formada na cidade californiana de Sacramento, em 1988, o Deftones inicialmente se caracterizava por composições que mesclavam rock pesado, com guitarras afinadas em tom muito baixo e vocais de rap em várias delas. Essa era a fórmula do chamado “nu-metal” ou “new-metal”. Garotos norte-americanos de classe média que cresceram ouvindo bandas clássicas de rock como Metallica, Kiss e AC-DC , mas que também estavam altamente expostos a artistas de black music como Michael Jackson, Run DMC e N.W.E, por exemplo. Essa geração misturou essas duas influências distintas que deram origem a bandas como Korn, Limp Bizkit e a banda em questão aqui, Deftones.


Era interessante de se ver porque eram caras, em sua maioria brancos, que se vestiam como os caras negros das perfierias das grandes cidades americanas. Muita gente não comprou a ideia. Achavam bizarro demais e musicalmente pobre. Mas muita gente se identificou com aquilo. Inclusive eu. Bandas que tocavam metal misturado com rap e se vestiam de um jeito que eu achava “style”? Lógico que eu ia gostar!

Mas voltando ao Deftones, o grupo formado por Chino Moreno (vocal e guitarra ocasional), Stephen Carpenter (guitarra), Chi Cheng (baixo) e Abe Cunningham (bateria) conseguiria gravar seu primeiro álbum, já por uma grande gravadora, em 1995. “Adrenaline” é um disco bem agressivo. Chino abusa dos berros, rima com destreza e ainda reservava alguns momentos para utilizar passagens vocais melódicas. Algo que ganharia muito mais espaço nas canções do grupo no futuro.  Embora todo o álbum seja de alta qualidade, as faixas de maior destaque são “7 Words”, “Root” e “Engine no 9”.

Dois anos depois (exatamente na época que descobri os caras) o Deftones lançou o cd que os colocaria de vez no mapa das grandes bandas do momento. “Around the Fur” mantinha a agressividade do seu antecessor, mas soava mais polido, mais bem trabalhado. O produtor era o mesmo, Terry Date (Pantera, Soundgarden, Soulfly), mas a cara das músicas tinha mudado um pouco e, creio eu, para melhor. Por isso afirmo categoricamente que, na minha opinião, este é o melhor trabalho dos caras. Músicas como “My Own Summer (Shove It)”, “Be Quiet and Drive (Far Away)” estão presentes até hoje no setlist dos shows do grupo. E ainda “Lotion”, “Head Up” (que conta com a participação de Max Cavalera nos vocais) e a própria faixa título são outros pontos altos desse excelente LP.


Vem então a virada do milênio e com ela as primeiras mudanças mais significativas no som do Deftones. O disco “White Pony” (2000), levou o grupo ao auge comercial de sua carreira. Canções como “Back to School”, lançada na re-edição do álbum (os caras se arrependeram de deixa-la de fora da versão original), e “Feiticeira” tinham a cara dos dois primeiros trabalhos, já “Change”, “Knife Party”, “Digital Bath” e a maravilhosa “Passenger” (com participação de James Maynard Keenan, do Tool) mostravam um lado mais suave dos californianos. A melodia havia chegado pra ficar nas composições do Deftones. E mais. A entrada do DJ Frank Delgado acrescentou ao som do grupo texturas que encorparam e deram um clima todo especial a cada faixa em que se fizeram presente.

Algumas pessoas, inclusive eu, torceram um pouco o nariz para essa desacelerada. Mas a qualidade do disco é inegável. A produção é impecável. Não à toa, a já citada “Change”, alcançou boas posições nas paradas de sucesso nos Estados Unidos. E para coroar o sucesso do álbum, a pesadíssima “Elite” ganhou o prêmio Grammy de melhor performance de Metal em 2001.

O sucessor de “White Pony” viria somente três anos  depois. O auto-intitulado “Deftones” é um trabalho um pouco mais soturno, não só a julgar pela capa - uma caveira cercada por rosas - mas pelo fato de as composições manterem o mesmo padrão do disco anterior, porém com um nível maior de “viagem” em múscias como “Minerva”, “Moana” e “Anniversary of an Uninteresting Event". Ainda assim é um bom disco que traz algumas das minhas faixas favoritas em toda a discografia da banda como “Hexagram” e “Bloody Cape”.


O Deftones seguia relevante, fazendo shows por todo o mundo e muito respeitado pela crítica. Mas o sucesso, vocês sabem, sempre cobra um preço. Entre o “self-titled” e o disco seguinte, os membros do grupo entraram numa espiral de problemas. Chino, se via  nitidamente pelo inchaço do rosto, estava com sérios problemas envolvendo álcool e outras drogas. O relacionamento entre os caras se deteriorou muito por conta disso e o clima para a gravação de “Saturday Night Wrist” não poderia ser pior. E isso se refletiu no resultado final.

O produtor escolhido inicialmente foi Bob Ezrin, famoso por ter trabalhado com o Kiss. Mas não houve uma boa química entre ele e um Chino nada amigável na época. A parceria durou pouco e não rendeu quase nada para o álbum, que teve sua produção finalizada por Shaun Lopez. Na minha opiniao de fã, esse disco, monótono e sem muita inspiração, é o mais fraco dos caras, ainda que conte com boas músicas como “Hole In The Earth”, “Beware” e “Rats! Rats! Rats!”.

Mas tudo iria piorar ainda mais para um dos pioneiros do nu-metal, que a essa altura, já havia virado história no cenário do rock mundial. Em novembro de 2008, na cidade de Santa Clara, o baixista Chi Cheng estava no banco do carona do carro de sua irmã, sem cinto de segurança, quando este colidiu violentamente com outro veículo em um cruzamento. Chi sobreviveu, mas em estado vegetativo. Não falava e nem andava mais.


O acontecimento terrível serviu para os integrantes do Deftones refletirem sobre a condição geral da banda. Na época do acidente de Chi, os caras estavam quase finalizando o álbum que já tinha até um título definido, “Eros”. Mas a decisão foi de não lançá-lo. Não se sentiam confortáveis para tal.  

O que eles decidiram fazer foi aparar todas as arestas. Chino realinhou seu comportamento após alguns anos bem complicados e a banda se manteve unida. Para isso, recrutaram o amigo de longa data Sergio Vega (da banda Quicksand) para substituir Chi Cheng até que este pudesse voltar a tocar. O que jamais aconteceria.

Com uma nova configuração, tanto física quanto mental, o Deftones recomeçou do zero o trabalho de composição de um novo disco. Em 2010, “Diamond Eyes” viu a luz do dia. A volta dos caras não podia ser mais triunfal. Depois de um período pra lá de turbulento, parece que as “estrelas se alinharam” novamente e a banda acertou em cheio com um disco fantástico. Desde a faixa-título, que abre o álbum, passando por “Rocket Skates”, “You’ve Seen the Butcher”, “Sextape” e “Beauty School”, “Diamons Eyes” é um disco que se mostra equilibrado. Músicas pesadas dividem espaço com as baladas que não estão tão viajantes quanto outrora. Também estão lá as melodias, cortesia do vocal inconfundível de Chino Moreno, e as pitadas de elementos eletrônicos, sempre a cargo de Frank Delgado. Obviamente, o álbum recebeu ótimas críticas e figurou em diversas listas dos melhores discos lançados em 2010.


O sucessor de “Diamond Eyes” veio dois anos depois. “Koi No Yokan” (frase japonesa que significa algo como premonição do amor) foi igualmente bem sucedido. Embora seja um pouco mais leve que o anterior, ainda tem a cara do Deftones. Talvez não seja o tipo de disco que te conquiste exatamente na primeira ouvida, mas seu valor é facilmente reconhecido já na segunda ou terceira. Músicas como “Leathers”, “Romantic Dreams” e “Poltergeist” se destacam, mas para mim, a canção que te faz cair o queixo e provoca aquele arrepio na nuca é “Tempest”. Recomendo que seja ouvida no fone de ouvido e em alto volume. Se você for imune aos efeitos que ela causa, sinceramente, não sei de que mundo você veio.

O que eu mais admiro no Deftones em todos esses anos (quase 20!!) é a regularidade. Por mais que um ou dois álbuns estejam um pouco abaixo da média estabelecida pela banda em toda sua carreira, eles sempre se mantiveram fiéis ao seu próprio estilo. Por mais que sejam até hoje rotulados como um dos pioneiros do famigerado nu-metal, esses californianos criaram sua própria fórmula de composição. Variam aqui e ali para não cair na monotonia, mas, ao contrário de seus contemporâneos Korn e Limp Bizkit, nunca se preocuparam em fazer algo espetaculoso ou forçaram uma mudança radical no som para tentar ter mais sucesso ou ser mais relevante. Talvez pelo fato de nunca terem alcançado o status de mega banda, como as citadas alcançaram, nunca precisaram se preocupar em manter essa condição. No melhor estilo “low profile” conquistaram seu espaço, se mantiveram criativos e hoje certamente são mais respeitados e seus trabalhos recebem melhores críticas do que qualquer outra banda de sua geração.


Para minha total satisfação, tive a oportunidade de ver Chino e companhia ao vivo por três vezes. A primeira foi em 2001, no Rock In Rio III. Parecia um sonho que eu achei que jamais se repetiria. Acreditava que uma banda alternativa como essa jamais voltaria a se apresentar por aqui. Mas eu estava enganado. Eles voltaram e eu pude estar presente num show só deles em 2007 e, por fim, no festival Maquinaria, em 2009. Em todas essas vezes senti exatamente a energia que imaginava ao ver shows ou clipes pela TV. Chino enlouquecido no palco e interagindo constantemente com o público. Stephen massacrando nos riffs, paradão, à direita do palco, mas sempre “bangeando” como se não houvesse amanhã. Abe espancando sua bateria com disposição e técnica impressionantes e Sergio Vega, viajandão, rindo e tocando de olhos fechados. Claro que eu também pude ver Chi Cheng ao vivo. Seus dreadlocks gigantes voando pelo palco, backing vocals absurdamente agressivos e o estilo clássico de tocar baixo com os dedos. Nada de palheta. Em decorrência do grave acidente já relatado aqui, o músico viria a falecer em abril de 2013. Saudade eterna.

Então é isso. É por esse texto gigante em que procurei contar a história de uma das bandas que mais marcaram minha vida, que eu continuo sendo deftones@ “provedor”.com.br.  O signicado da palavra “deftones”? Desconhecido. Os próprios integrantes não sabem explicar direito. Dizem que foi a primeira palavra que veio a mente quando perguntaram no início da carreira, qual era o nome da banda. Típico deles.

 Encerro esse post com o trecho da música “Minerva”, como uma espécie de agradecimento: “God bless you all for the song you saved us”.










sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

DE LA TIERRA



De La Tierra: poder latino a serviço do metal



Eu me lembro de já  ter comentado sobre isso em algum post anterior. Em meados dos anos 90 a quase finada MTV era minha principal fonte de descoberta de novas bandas. Nessa época eu já estava vidrado em música e todo o dia assistia o canal, ávido por alguma novidade. Foi nesse período que descobri vários grupos, muitos dos quais sigo até hoje como Machine Head, Slipknot, Biohazard, Deftones, Korn, Limp Bizkit e tantos outros. Um desses “tantos outros” era um grupo de metal argentino chamado A.N.I.M.A.L. Isso mesmo. Uma sigla que significa “Acosados, nuestros indios murieron al lutchar”. Traduzindo: “Molestados, nossos índios morreram lutando”. O vídeo que me fez ter o primeiro contato com os caras foi o da música “Milagro”. Uma paulada com guitarras pesadas, bateria quebrada, refrão contagiante e um vocal muito competente, em espanhol, a cargo de Andrés Gimenez.


A partir de então comecei a ficar de olho nesta banda. Em uma ida à Galeria do Rock, achei  exatamente o cd que tinha a faixa “Milagro”, cujo título era “Poder Latino”. Acertei em cheio. O disco era muito bom. As músicas misturavam metal, punk, rap e tinha até um pequeno espaço para a música folclórica argentina.


Não muito tempo depois, percebi que a MTVnão passava nenhum clipe mais recente do A.N.I.M.A.L.  Também não havia You Tube para eu seguir os passos da banda. Somente em 2011, em viagem a Buenos Aires, no quarto do hotel, assistindo um programa de clipe de um canal porteño qualquer, descobri que o vocalista Andrés Gimenez estava com uma nova banda, chamada D-Mente. Gostei do som e, no dia seguinte, comprei o cd dos caras sem medo de me decepcionar.  O álbum é bom. Segue uma linha de metal mais tradicional que o A.N.I.M.A.L. Não chega a ser tão cativante quanto, mas achei bacana.

 



Pois bem. Mais dois anos se passaram e, acessando o portal especializado em rock whiplash.net para me atualizar sobre as minhas bandas preferidas, tomei conhecimento que um novo supergrupo havia sido formado. Por supergrupo entendam como uma banda formada por músicos já consagrados em outras bandas. Um bom exemplo é o saudoso Audioslave, formado pelo vocalista do Soundgarden, Chris Cornell e pela parte instrumental do Rage Against the Machine, Tom Morello, Timmy C. e Brad Wilk. Temos ainda o Chickenfoot, com integrantes do Van Halen, Red Hot Chili Peppers e mais o guitarrista Joe Satriani.


Mas este supergrupo que encontrei no whiplash me chamou a atenção por contar com Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura. Pensei comigo: “vem coisa pesada por aí”. Dito e feito. Lendo a matéria no site, descobri que o grupo se chamaria De La Tierra e, além de Andreas, seria formado por Alex González (baterista da famosa banda mexicana Maná), Sr. Flavio (baixista da banda argentina de ska Los Fabulosos Cadilacs) e, vejam só. Andrés Gimenez! Sim! O líder do A.N.I.M.A.L. e do D-mente seria o vocalista principal e também guitarrista.


Me empolguei imediatamente e fui ouvir o primeiro single disponibilizado na internet, chamado “Maldita Historia”. Excelente música com influências nítidas de A.N.I.M.A.L. e Sepultura. Em seguida saí caçando entrevistas com os caras pra saber como se reuniram , com qual motivação, etc. Não demorou muito mais tempo e o álbum, auto-intitulado, foi disponibilizado em sua totalidade, em streaming, pela gravadora que distribuiria o trabalho.

Sem saber quando e se o disco sequer seria lançado aqui no Brasil, não pensei duas vezes. Ouvi de ponta a ponta e confirmei. Que discaço! A intro, “D.L.T”, com um dueto de violão acústico e guitarrra, abre caminho para a primeira porrada, “Somos Uno”. Logo de cara percebo que os vocais de Andrés estão mais potentes e agressivos se comparados ao álbum do D-mente. Eu imaginava que o cara, há tantos anos na ativa, já não teria mais a pegada de outrora. Felizmente me enganei redondamente. 

 

A terceira faixa é “Rostros”. Tanto quanto ou mais pesada que a anterior, tem tudo para ser um dos destaques nas apresentações ao vivo. Em seguida vem “San Asesino”. A introdução é uma bateria emulando um samba, mas logo depois é o metal que impera em toda a canção. Porém, um outro detalhe especial vem à tona nesta faixa: Andreas Kisser divide os vocais com Gimenez cantando em português. Excelente idéia que aparece também em outras músicas com o mesmo resultado positivo.  A junção dos vocais nos dois idiomas dá uma cara ainda mais única para o trabalho que segue sem diminuir o ritmo em nenhum momento. “Chaman de Manaus” e “Reducidores de Cabeza” são outras duas faixas que se destacam um pouco mais em relação às outras. Finalmente, “Cosmonauta Quechua”, um thrash metal desgracento, fecha o cd de forma brilhante.  


No geral, os arranjos privilegiam as caracteríticas dos quatro integrantes. Os inconfundíveis solos dissonantes de Andreas se encaixam perfeitamente às boas bases de guitarra compostas por Gimenez. Enquanto que na “cozinha”, Sr. Flavio lança mão de alguns slaps nos momentos certos e Alex González se revela um grande baterista de metal (apesar de fazer parte de uma banda de rock com fortes influências de música latina) e ainda canta em um trecho de “Maldita Historia”. 


Muito interessante observar que todos os membros do De La Tierra contribuíram de forma relevante para as composições do álbum. Seja com a letra ou com a música, todos eles assinam as onze músicas presentes no disco. Aliás, foram eles mesmos os responsáveis tanto pela produção executiva quanto artística do disco.

Para minha enorme satisfação, “De La Tierra”, o cd, foi lançado aqui no Brasil agora em fevereiro. Obviamente, já comprei minha cópia e tenho escutado constantemente junto com outro excepcional disco de um ex-membro do Sepultura. Mas isso é assunto para um post vindouro.


 Sob a efervescência do lançamento mundial do disco, o De La Tierra vai fazer sua estreia ao vivo neste mês de março, abrindo os shows da turnê sul-americana do Metallica. Nada mais apropriado, não? O primeiro deles será na Colômbia (dia 16) e, na sequência se apresentam no Equador (dia 18), Peru (dia 20) e Paraguai (dia 24). Cinco dias depois os caras estarão no México, onde serão uma das atrações do festival Vive Latino, na capital mexicana. Infelizmente, nenhuma data aqui no Brasil foi confirmada até agora.


Pois bem. Há mais de quinze anos reforcei meu gosto por rock cantado em espanhol através da banda A.N.I.M.A.L. Os “hermanos” apenas confirmaram o que eu já havia descoberto através da brutal banda mexico-americana Brujeria, poucos anos antes. E a busca continua. Ano passado, em nova viagem a Buenos Aires, comprei o cd da banda de outro ex-membro do A.N.I.M.A.L., chamada Carajo. E devo continuar nesse caminho. Em uma terra onde o heavy metal permanece muito forte e cujos fãs talvez sejam os mais fiéis ao estilo em todo mundo, nada melhor do que uma banda que reúne o que temos de melhor pra oferecer. Mais do que nunca, é o poder latino a serviço do metal!



 










quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

PEARL JAM



Pearl Jam desce um degrau (só um) em novo álbum
 
Quem me conhece um pouco mais de perto sabe que sou fanático pelo Pearl Jam. Acompanho os caras por cerca de 20 (!!!) anos, fui a dois shows e os incluo facilmente no meu top 5 de bandas favoritas de todos os tempos. Cada disco lançado por este grupo de Seattle eu compro de olhos fechados, sem medo de me decepcionar. E de fato isso nunca aconteceu. Salvo alguns experimentalismos aqui e ali em alguns álbuns, eu não vejo nenhuma falha no repertório de um dos pioneiros do chamado rock grunge, lá no início dos anos 90.

Foram quatro anos de intervalo entre o último trabalho de estúdio da banda, o bom “Backspacer”, e o mais recente, “Lightning Bolt”, lançado em outubro do ano passado. Pois é...já faz um tempinho. Mas eu fiz questão de esperar pra colocar as mãos (e os ouvidos) no disco para poder fazer uma avaliação bem justa e imparcial. Só ouvi os dois primeiros singles. Não fucei no You Tube e nem mesmo li críticas a respeito. 

Esperei pacientemente até 25 de dezembro o Papai Noel me trazer “Lightning Bolt” de presente porque o preço não era nada convidativo (acima da média já alta de preços de discos aqui no Brasil). Pois bem. Me ajeitei em uma cadeira, dei play no controle do meu som e dei início a mais uma agradável experiência de ouvir um cd do Pearl Jam. “Getaway” é a primeira faixa. Gostei! Um rock típico deste grupo de Seattle. Sujão, bom pra acompanhar o ritmo batendo o pé. A segunda é “Mind Your Manners”, o primeiro single tirado do álbum e que na época em que foi revelado me causou uma surpresa pra lá de positiva. Trata-se de uma canção clássica de punk rock. Uma sequência de “power chords” básica, à la Ramones ou Black Flag, vocais gritados de Eddie Vedder e curta duração. Excelente!

 
Na sequência vem “My Father’s Son”, outra música bem ao estilo Pearl Jam, cuja letra fala da relação tortuosa entre um pai e um filho (alguém aí lembrou da letra de “Alive”?). Eis que surge então a primeira balada do álbum, “Sirens”. Esse foi o segundo single retirado do disco e com ele veio meu primeiro questionamento sobre o mesmo. O Pearl Jam sempre foi craque no que diz respeito a baladas. A banda que tem no currículo verdadeiros clássicos como “Black”, “Daughter” e “Better Man” (poderia citar mais meia dúzia) decepcionou um pouco dessa vez. A música com certeza é boa, a letra também, mas soa muito “boazinha”, excessivamente polida. Ao invés do órgão geralmente utilizado nas composições mais lentas, dessa vez aparece um piano comum que se vê em baladas mais adocicadas de bandas como Oasis ou Coldplay.

Um dos grandes momentos de “Lightning Bolt” é a faixa que leva o nome do trabalho. Com forte presença de guitarras, arranjo dinâmico e refrão marcante, já é um dos pontos altos dos shows da nova turnê. A partir daí, o disco começa a tomar um rumo...eu diria... questionável. “Infallible” começa logo de cara com um groove que lembra “Tremor Christ”, do álbum “Vitalogy” (1994). Logo depois vem aquele que eu acredito ser o ponto mais baixo do cd. “Pendulum”.

Se você é fã e conhece o Pearl Jam de perto, sabe que, desde a época do já citado “Vitology” e do seu sucessor, “No Code” (1996), o grupo passou a incluir algumas composições mais experimentais, com arranjos nada ortodoxos, às vezes letras faladas ao invés de cantadas, etc. No caso de “Pendulum”, o que se percebe é uma canção bastante cadenciada, marcada por uma linha de bateria meio hipnótica. Talvez por isso tem sido constantemente usada para abrir os shows da atual turnê dos caras, que gostam de iniciar suas apresentações com músicas mais lentas para depois acelerar o ritmo. Mas essa em especial é monótona demais. Quando a ouvi no cd pela primeira vez, nem consegui ir até o fim. Tentei mais algumas vezes pra ver se acostumava, mas ainda assim não deu certo.
 

A empolgação volta um pouco com duas músicas interessantes: “Swallowed Whole” e a blueseira “Let The Records Play”. Mas aí o ritmo cai de novo e o álbum é finalizado com mais três (!!!) baladas. “Sleeping By Myself” é influenciada por country e tem uma passagem de ukelele (uma espécie de violão havaiano) no final que não ajudou muito. “Yellow Moon” é um pouco mais interessante, mas ficou melhor ao vivo do que na versão de estúdio.  A faixa derradeira é “Future Days”. Lenta demais, talvez coubesse melhor em um disco solo de Eddie Vedder. 

Tirando a famigerada “Pendulum”, essas músicas finais não são ruins, ainda que as baladas do cd anterior tenham causado melhor impressão. O problema é que elas estão quase em sequência. Por isso, um pouco depois da metade em diante, o disco se arrasta até o final.

Faço essas críticas a “Lighting Bolt” com a “liberdade” de quem é fã incondicional do Pearl Jam. Apesar da morosidade de algumas músicas, ainda assim esse é um bom disco de rock. O fato é que é improvável que a banda venha a igualar clássicos como “Ten” e “Vs”. Na verdade nem precisa. O restante da discografia fala por si só. Puxando para memória, a única vez que eu havia me sentido um tanto quanto implicante com um trabalho novo de Eddie Vedder e companhia foi com “Riot Act”, há mais de dez anos.  Isso sem mencionar as apresentações ao vivo. Sempre marcantes para qualquer fã. 

É inegável, porém, pelo menos para mim, que os caras desceram um degrau. Mas foi apenas um degrau, certo? Não foi um tombo retumbante. Principalmente se tratando de uma das maiores bandas da história do rock. Exatamente por isso é que eu não duvido que, daqui uns três ou quatro anos, os caras calem minha boca e soltem um novo álbum recheado de boas músicas do começo ao fim. Ou algo bem próximo disso.






segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

letlive.

Letlive: deixe o novo viver 


Eu demorei alguns anos para começar a expandir meus horizontes musicais. Comecei a ouvir rock e rap, meus gêneros favoritos, por volta de 1993 e montei uma espécie de “grupo dos intocáveis”. Um grupo de não muito mais do que dez bandas/artistas que eu escutava sem parar. E ai de quem ousasse falar mal de algum deles.

O problema era que eu me mantinha de certa forma congelado no tempo. Não ouvia nada muito novo, nada “desconhecido”, nem nada do passado. Só depois de amadurecer, sob todos os aspectos, que fui aprendendo a escutar outros tipos de bandas, outras vertentes do rock, além dos grupos que os influenciaram e que foram infuenciados pelo meu “grupo dos intocáveis”. Foi assim que eu fui mais fundo no punk rock, no indie rock, no funk e na soul music. Eu imagino o quanto eu perderia se não tivesse adquirido o hábito de constantemente buscar novas bandas. Foi assim que descobri...sei lá...uns quarenta porcento das bandas que ouço hoje regularmente.

Outra forma muito efetiva de descobrir novidades musicais é através da colaboração dos meus parceiros de gosto musical. Aquela galera que você sabe que sistematicamente vai te indicar um som novo que muito provavelmente você vai gostar e vai acabar comprando cd, indo ao show, etc.


 Pois foi justamente através da indicação de um desses parceiros que eu fiquei sabendo da existência de uma banda chamada letlive. (se escreve assim mesmo, com letra minúscula e um ponto no final). Formado na cidade de Los Angeles em 2002, esse é um grupo relativamente dificil de encaixar em um estilo. A princípio seria uma banda de metal. Mas é mais do que isso. Metal moderno? Avant gard metal? Progressivo? Hardcore metal? Metal experimental? Eu diria que um pouco de cada. E é justamente aí que está o diferencial dos caras. Aliás, aí e nas caóticas performances ao vivo.

O vocalista do letlive. é o malucão Jason Butler. Se dando entrevistas ele parece ser um rapaz bem calmo e articulado para expor suas ideias, quando sobe no palco vira um bicho. Se joga no chão, na plateia, se pendura em qualquer lugar possível, enfim, um show a parte. Mas nada disso é forçado. A atitude de Jason no palco reflete a intensidade do som e das letras do letlive. que geralmente tratam sobre o comportamento humano em muitas de suas variáveis: sexo, religião, preconceito e por aí afora.

O grupo já passou por algumas mudanças em sua formação desde o lançamento de seu primeiro disco, “Speak Like You Talk”, em 2005, mas hoje conta, além de Jason, com os guitarristas Jean Nascimento (sim, brasileiro) e Jeff Sahyoun, o baixista Ryan Jay Johnson e o baterista Loniel Robinson.


Cinco anos depois do primeiro álbum a banda começou a chamar a atenção da mídia especializada com a chegada de “Fake History”. Este disco colocou o letlive. no rol das “promessas do novo metal”. Fez parte de várias listas do tipo “preste atenção nesta banda”. E não era pra menos, “Fake History é um excelente trabalho. Consistente e agressivo em quase sua totalidade, não fossem os momentos certeiros em que incluem em algumas músicas passagens melódicas, arranjos mais cadenciados e até mesmo uma participação de um vocal feminino (na faixa “Muther”). Mas veja bem. Essa mistura não serve pra adocicar o som dos caras. Nem pense em ouvir “Fake History” achando que vai encontrar um metal acessível estilo Linkin Park. Os berros de Jason e as guitarras competentes de Jean e Jeff dão exatamente o que uma banda de metal precisa. Adicione a isso a “cozinha” afiadíssima que acaba dando um toque especial às composições do letlive..

Difícil destacar três ou quatro faixas que me agradam mais neste LP. Talvez eu fique com “Le Prologue’’, “The Sick, Sick, 6,8 Billion”, “Casino Columbus”, “Muther” e “H. Ledger”. Opa! Citei mais de quatro músicas. Pois é. Eu avisei que o disco é excelente.

Já sob o status de banda estabelecida no cenário alternativo do metal, o letlive. partiu para a gravação de seu terceiro trabalho de estúdio. Em julho de 2013 lançaram “The Blackest Beautiful”. Eu já ouvi o álbum umas três vezes para poder fazer uma análise minimamente justa. O que pude observar logo de cara é que não é uma mera cópia do disco anterior. Nitidamente os caras tentaram variar um pouco em relação a “Fake History”. Não dá pra dizer que experimentaram mais porque seu antecessor já foi bem experimental. Mas, no geral, as composições desaceleraram um pouco, sem perder a característica caótica, típica desses californianos.



A primeira faixa, “Banshee (Ghost Fame)”, tem uma pegada meio hip hop no início, mas mais adiante alterna passagens melódicas e gritos ensandecidos. “Empty Elvis” e "The Priest and Used Cars" também são bem pesadas e facilmente entrariam no cd anterior. Já "White America's Beautiful Black Market" me chamou a atenção pela letra na ponte: “we get sick so they can feel better”, cantada por Jason de forma desesperada. Um dos pontos altos do disco.

Três canções específicas, "That Fear Fever", "Virgin Dirt" e "Younger" marcam a desaceleração das composições do grupo que eu citei anteriormente. A segunda está proxima de ser uma balada e se destaca por um trecho da letra que diz “love is just a cancer and sex is just a pill”. A última beira o pop rock. Talvez seja o único momento meio sem graça do álbum.

A última faixa é “27 Club”. Extremamente agressiva, é uma das melhores músicas do repertório do letlive. e já vinha sendo executada nos shows da banda antes do lançamento de “The Blackest...”.  Não poderiam ter escolhido um encerramento mais adequado.


Apesar de me fazer lembrar nitidamente de outras bandas que possam tê-los influenciado como Deftones e Ill Nino, dá pra perceber que o letlive. tem uma identidade própria. Musicalmente falando e pela sua surpreendente postura ao vivo, como já afirmei aqui. Eu fiz questão de dividir com alguns amigos uns trechos de shows dos caras e a reação quase sempre foi a mesma: um espanto inicial e logo em seguida a constatação de um som frenético e bem “in your face” mesmo.

Por enquanto o grupo continua com o status de sensação do underground. Não acredito que isso deva mudar muito nos próximos anos. Não consigo imaginar o som do letlive. excessivamente exposto pelas grandes mídias. Nunca vi um clipe sequer deles em uma MTV ou Vh1 da vida. Por mim, tudo bem. Eu já consegui descobrir que a banda existe. Quem ainda não havia descoberto, pode ter acabado de fazê-lo por aqui ou vai acabar descobrindo cedo ou tarde através de algum garimpeiro da boa música como eu e meus parceiros. Boa sorte!
  


Clique aqui para ver o letlive. ao vivo no Orion Festival - Junho de 2012

Clique aqui para ver entrevista com Jason Butler

Clique aqui para ouvir o álbum "Fake History" na íntegra

Clique aqui para ouvir o álbum "The Blackest Beautiful" na íntegra

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

TOP 5

Top 5 – Os melhores álbuns do rock nacional


Este top 5 é uma espécie de homenagem ao rock brasileiro. Nesse momento muito complicado para o estilo, em que a maioria das bandas que se destacam tem uma qualidade, no mínimo, questionável, resolvi fazer uma pesquisa e conversar com uma galera pra que pudéssemos decidir quais são os cinco melhores álbuns de rock nacional.
É claro que seria mais justo fazer uma lista com dez discos, talvez até 20, porque são muitos os bons trabalhos feitos por aqui nos últimos 30, 40 anos. Mas resolvi manter o padrão desta seção e ficar realmente nos cinco.
Como nos anos 80 tivemos um “boom” de grandes bandas e grandes álbuns, nada mais natural que elas predominassem na lista final. Infelizmente, muita coisa boa dos anos 70 e 90 e até dos anos 2000 ficaram de fora.
Como sempre, fiquem à vontade pra discordar dos nossos eleitos. Mas, no fim das contas, é justamente pra criar uma certa polêmica que servem essas listas, certo?









 1º “Dois” – Legião Urbana – 1986
A Legião Urbana, para muitos,  foi a maior banda de rock do Brasil. “Dois”, como o nome já indica, é o segundo álbum do grupo que já havia feito um ótimo trabalho no disco de estreia um ano antes e se firmou como destaque do cenário do rock brasileiro com este LP reacheado de belas cançoes com letras inspiradíssimas escritas pelo ótimo compositor Renato Russo. Musicalmente, a Legião fugiu um pouco do punk rock do disco anterior e passou a usar um pouco mais de violões, o que deixou as músicas menos agressivas mas não menos contundentes em função das mensagens que passavam. Faixas como “Quase Sem Querer”, “Tempo Perdido”, “Eduardo e Mônica” e “Índios” catapultaram “Dois” para ser o disco mais bem sucedido da carreira da banda, vendendo mais de 1,2 milhão de cópias.









 2º “O Passo do Lui” – Os Paralamas do Sucesso – 1984
Foi também com seu segundo álbum lançado que os Paralamas do Sucesso explodiram de vez e se tornaram uma das melhores bandas de rock do país. Das dez faixas de “O Passo do Lui”, nada menos do que sete se tornaram hits radiofônicos e até hoje são lembradas mesmo por aqueles que não são grandes fãs do grupo liderado por Herbert Vianna. Chamados de última hora pra tocar no Rock In Rio I, os Paralamas tiveram a oportunidade de tocar para milhares de pessoas e fizeram um show memorável baseando seu setlist justamente no então recém lançado álbum. O público foi ao delírio com músicas como “Óculos”, “Meu Erro”, “Romance Ideal” e “Ska”. Segundo lugar mais do que merecido.









3º “Nós Vamos Invadir Sua Praia” – Ultraje à Rigor – 1984
O Ultraje à Rigor desde o início deixou muito clara a intenção de suas composições: rock básico e divertido. “Nós Vamos Invadir...” foi o álbum de estreia da banda e mostrou exatamente essas características. As letras divertidas de Roger Moreira casavam perfeitamente com músicas simples, porém muito bem executadas. O baixo inconfundível de Maurício e os solos de Carlinhos eram marcas registradas de todas as canções. Fica difícil destacar apenas três ou quatro faixas deste LP. Acreditem. Todas chegaram a fazer sucesso e tocar nas rádios FM na época. Vou colocar aqui aquelas que a maioria de vocês certamente vai lembrar: a faixa título,  é claro, “Ciúme”, “Inútil” e “Eu Me Amo”. Lembraram, né?










 4º “Cabeça Dinossauro” – Titãs – 1986
Eu me lembro de ter a versão em fita cassete deste disco. Eu e minha irmã ouviamos sem parar embora ficássemos escandalizados com algumas letras extremamente agressivas ou simplesmente esquisitas de autoria de Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Sergio Britto e até do guitarrista Toni Belotto. Depois de lançar dois discos “inofensivos”, o terceiro álbum dos Titãs veio realmente pra chocar, o que os deixou na época com a fama de “banda do mal”. Ao mesmo tempo serviu para que se tornassem conhecidos em todo o país. Faixas como “AA UU”, “Polícia”, “Homem Primata” e “Bichos Escrotos” talvez sejam os maiores destaques desta que é mais uma das pérolas do rock brazuka!










 5º “Gita” – Raul Seixas – 1974
Não é à toa que surgiu o bordão “Toca Raul”, utilizado em muitos daqueles shows  de barzinhos que muitos de nós já foram pelo menos uma vez na vida. Para muitos críticos especializados e fãs de rock em geral, Raul Seixas é o pai do rock brasileiro. O cantor e compositor que já vinha “botando pra quebrar”  desde 63, marcou época com este álbum que incluía canções marcantes como “Medo da Chuva”, “Sociedade Alternativa” e a própria faixa-título. Contando com a parceria do escritor Paulo Coelho, as letras de “Gita” (e várias outras no decorrer de sua carreira) abordavam a temática do misticismo e também da crítica contra o regime político da época. É certamente um trabalho marcante que fecha em alto nível o Top 5 deste mês.




Como eu disse na introdução, excelentes discos não conseguiram uma vaga nesta lista. Alguns deles chegaram muito perto de entrar. Por isso, nada mais justo que destacar todas as bandas que foram votadas por aqueles que contribuíram para esta eleição: O Rappa, Raimundos, Ira, Camisa de Vênus, Cazuza, Barão Vermelho, Chico Science e Nação Zumbi, Los Hermanos, Pitty, Skank, Lulu Santos, Jota Quest e Velhas Virgens.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

MONSTERS OF ROCK

Monsters of Rock: Arena Anhembi em fúria!


No meu post anterior eu deixei bem clara minha insatisfação com a edição deste ano do Rock In Rio. Apesar de algumas justificativas que cheguei a citar naquele texto, o festival da cidade maravilhosa deixou a desejar no quesito atrações. Além disso, eu já tinha em mente o line up de um outro festival que seria realizado cerca de um mês depois na cidade de São Paulo. O Monsters of Rock.

Este festival essencialmente voltado ao heavy metal teve sua origem na cidade de Donington, na Inglaterra, nos anos 80, e hoje se chama Download Festival. No Brasil foi realizado pela primeira vez em 1994 e havia tido sua última edição em 1998. Seu retorno ao nosso calendário de shows neste ano de 2013 deixou os amantes da música pesada em polvorosa. E não era pra menos.

Inteligentemente, a organização do evento resolveu dividir o festival em dois dias. O primeiro privilegiou a vertente mais moderna do metal, incluindo bandas tidas como da “nova geração” do estilo e que não possuem muito mais do que 20 anos de estrada. O segundo dia foi voltado para o chamado “hard rock” incluindo bandas que fizeram sucesso nos anos 70 e principlamente anos 80 como Aerosmith, Whitesnake, Ratt, entre outras.

Naturalmente, minha geração, que passou a adolescência e início de juventude durante os anos 90 e começo dos 2000, se viu atraída pela programação do primeiro dia do Monsters. Nomes consagrados do chamado “nu metal” como Slipknot, Korn e Limp Bizkit, acompanhados de representantes do metalcore ou hardcore metal como Killswitch Engage, Hatebreed e Gojira, se apresentaram para um público de cerca de 30 mil pessoas. Preciso dizer que eu era uma delas? É por isso que este post é dedicado totalmente ao primeiro dia do evento.


 Eu, meu parceiro de longa data em shows, Alex e seu sobrinho Rafael (devidamente encaminhado musicalmente)  chegamos na Arena Anhembi (sambódromo) por volta de 13 horas, embaixo de um sol impiedoso. Pouco depois entrou no palco a banda brasileira Projeto 46, vencedora de um concurso promovido pela organização do Monsters. Acompanhei os caras meio de longe e o que deu pra perceber foi que eles mandaram um metalcore competente que combinava muito bem com as outras atrações do dia. Em seguida foi a vez dos franceses do Gojira. Esse é um grupo que, ano após ano, vem conquistando seu espaço no cenário do heavy metal com uma pegada mais progressiva, ou seja, com músicas mais longas e arranjos intrincados.

Mas foi por volta das três e meia que o festival começou pra valer. O público, que a essa hora já era de razoável pra bom, estava com energia estocada de sobra e pronto pra explodir. E o Hatebreed foi o estopim que faltava. A banda liderada pelo carismático vocalista Jamie Jasta, despejou seu hardcore, sem dó, por quase 45 minutos. O cover de Refuse/Resist, dos ícones brasileiros do metal, Sepultura (que contou com a participação do guitarrista Andreas Kisser), elevou ainda mais o nível de agressividade da apresentação. A última música executada pelos caras resumiu bem o que foi o show: “Destroy Everything”. Eu ousaria dizer que, por conta deste início bombástico, boa parte do público não conseguiu chegar ao fim do festival com o gás que gostaria.


Coube então ao Killswitch Engage a árdua tarefa de tocar depois da avalanche promovida pelo Hatebreed. Vale lembrar que o Killswitch, ao lado do Slipknot, era o show que eu mais aguardava. Mas as coisas não começaram muito bem para eles. Inexplicavemente, a qualidade do som que foi um dos pontos altos da apresentação anterior deixou os metaleiros de Boston na mão durante as duas primeiras músicas do set dos caras.


Claramente isso afetou a animação da galera que foi embalando aos poucos, muito em função da garra e da competência dos integrantes da banda. O vocalista Jesse Leach, recém retornando ao grupo após dez anos de ausência, se mostrou em grande forma, tanto para cantar quanto para se dirigir ao público em momentos estratégicos. Além de Jesse, não posso deixar de destacar a qualidade absurda do batera Justin Folley, o fôlego interminável do baixista Mike D’Antonio (ele já havia tocado com o Hatebreed substituindo o baixista original, que se machucou antes de vir ao Brasil)  e, claro, a insanidade do guitarrista e líder da banda, Adam Dutkiewicz, que se comportava no palco como se estivesse numa micareta. Nem tentem entender o porque. Eu já desisti. No fim das contas, a apresentação agradou aos fãs e até o sol, que se pôs ao final da performance, deve ter se abalado com o peso do som do KsE.


 Após alguns minutos preciosos para recuperar o fôlego, estava pronto para a apresentação do Limp Bizkit. A banda se consolidou como uma das mais “pop” do nu metal, e até por isso quase sempre foi amada e odiada pela crítica e pelos fãs do estilo. Portanto este show era uma certa incógnita para mim. Eu era um grande fã dos caras no final dos anos 90. Cheguei até a usar a música “Nookie” como trilha sonora da minha caixa postal do celular (na época que eu tinha tempo pra personalizar minha caixa postal). Mas, com o tempo, o grupo caiu no ostracismo. Lançou apenas dois LPs e um EP em um período de dez anos! Mas não é que a popularidade deles continua forte por aqui? Se a performance do Hatebreed havia sido a mais agressiva do dia até então, Fred Durst e cia. fizeram a mais concorrida. Percebi muita molecada e muitas meninas tentando rumar em direção ao palco para acompanhar o show de perto.

O fato é que Fred Durst não deixou de ser o competente frontman do auge do Limp Bizkit. Usando uma camisa estampada com uma foto do saudoso rapper brasileiro Sabotage (morto em 2003),  ele teve a galera na mão durante cerca de uma hora. Não posso deixar de mencionar também o traje surreal do excelente guitarrista Wes Borland que parecia um misto de robô com extraterrestre.


Em boa parte do show passei sufoco espremido entre os cotovelos pontudos de uma garota que estava com medo de ser tragada pela multidão e o “mosh pit” que insistia em se abrir logo à minha frente. Tanto insistiu que eu resolvi fazer parte dele durante as músicas finais. Enfim, uma boa apresentação, com direito a covers dos hinos do rock “Smells Like Teen Spirit”, do Nirvana, e “Killing In the Name”, do Rage Against The Machine. Me surpreendi positivamente.

Eis que veio o único show “meia boca” do dia. Pelo menos para mim. O Korn é outra banda que eu ouvi bastante alguns anos atrás e ainda ouço de vez em quando. Tenho três álbuns dos caras no meu ipod, inclusive. Mas são álbuns lançados em 1994, 98 e 99. Em 2002 fui a um show deles em um local fechado e posso dizer, sem exageros, que foi um dos melhores que fui até hoje.


 Após a saída de um de seus guitarristas, Brian “Head” Welch, em 2005, e, logo em seguida, do baterista David Silveria, o grupo não conseguiu mais lançar discos de qualidade indiscutível como na primeira metade da carreira. A banda recrutou o ótimo baterista Ray Luzier e vem flertando constantemente com a música eletrônica no afã de de renovar sua sonoridade e se tornar verdadeiramente relevante de novo. Head voltou este ano e já gravou um novo álbum com os caras, mas não está rolando. Isso ficou muito claro na apresentação do Monsters. Depois de abrir com força total executando a fantástica “Blind” e emendando com “Falling Away From Me”, o Korn cometeu um erro amador para uma banda experiente em festivais. Tocou quatro canções seguidas de sua fase mais recente. Canções que muitos dos que estavam ali no Anhembi desconheciam. Obviamente os ânimos esfriaram.

Somente o cover de “Roots Bloody Roots”, do Sepultura, contando mais uma vez com participação do “arroz de festa” Andreas Kisser, acompanhado pelo vocalista Derrick Green, fez a galera acordar. Eu acordei junto e assim fiquei assim até o final da apresentação com as ótimas e antigas “Got The Life” e “Freak On a Leash”, provavelmente o maior hit do Korn. Enfim. Sendo bem sincero, foi um show não mais do que nota 6.


Finalmente chegava a hora da grande atração da noite. Da banda que tem uma base de fãs tremendamente fiel, conhecidos como “maggots” e que encheram o Anhembi trajados com camisteas das mais variadas estampas. Isso sem falar dos fãs ainda mais ardorosos que, mesmo com o sol ardendo sem piedade, fizeram questão de se vestir com a indumentária semelhante a dos seus ídolos: macacão e máscara.

É impressionante. Se você já viu um show do Slipknot, ainda que pela televisão, sabe que se trata de uma experiência, no mínimo, intrigante. Alguns se assustam e acham um absurdo aquele bando de caras pulando de um lado pro outro no palco usando máscaras que parecem ter saído de um filme de terror. Mas para os “maggots” uma apresentação do Slipknot significa tirar energia não sei de onde para aproveitar cada música de um setlist repleto de músicas pesadíssimas. Exceção feita apenas para umas duas músicas um pouco mais lentas.



Antes mesmo de começar esse show eu já estava com dor de cabeça, dor no pescoço e com a voz avariada. Mas nada me impediu de pular e vibrar com músicas como “Liberate”, “Everything Ends” e “Surfacing”, que encerrou o show e ainda teve o “truque” da bateria de Joey Jordison em que a mesma é elevada em uma plataforma, inclinada para frente e depois retorna ao seu lugar. Só depois de tudo encerrado é que o cansaço bateu de vez. Estávamos os três esgotados, mas totalmente satisfeitos com um sábado extremamente agitado. Um sábado que viu a passarela do samba na capital paulista se transformar na mais autêntica fúria metal.